O Sr. José Marcondes pensava consigo que a macarronada instantânea que trazia num dos sacos de compra não valia tanto sem o parmesão. Principiava a voltar ao mercado a comprá-lo quando chegou o táxi. Não digo que abandonou o parmesão por necessidade, ou para atender presto à motorista, sua amiga Susana; abandonou apenas uma ideia, posto que se dirigisse logo ao táxi sem discordar que o queijinho ralado não fazia mal. Eu tenho cá as minhas ideias e, no entanto, também as conformo ao momento.
- Olá Susana. -- Cumprimentou-a o Sr; Marcondes.
- Olá José. -- Tornou ela.
- Ainda não te tornaste católica? -- Perguntou sem rodeios o Sr. Marcondes.
- Não ainda, mas o que sei eu?
- Tu sabes dirigir, enquanto eu, nem tanto. Me pergunto se conheces as raiz etimológica do termo "elemento". -- Tornou o Sr. Marcondes.
- E por que deveria eu saber isso -- perguntou Susana Antonovna rindo-se -- por acaso te formaste em química?
- Não. Apenas me ocorreu que o termo pode ter um sentido mais geral. Se eu chamo elemento a parte de alguma coisa, a rainha de copas é elemento do jogo de cartas.
- Mas por que meditar no termo elemento? -- Perguntou Susana.
- Eu realmente não sei. Mas com não sabê-lo não sou pior do que qualquer roteirista de Hollywood, eles inserem todo tipo de fala estranha às histórias...
- Você acha? Me parece que eles sempre o fazem por um motivo. Qual terá sido o teu?
- Eu não sei, todo conhecimento que possamos adquirir requer informação, e eu não tenho-a completa, do princípio ao fim, que fazer? -- Tornou o Sr. Marcondes.
- É uma mórbida perspectiva, pois se não compreendes qual o sentido da tua ação, não podes fazer nada.
- Eu posso muito bem ter um propósito que desconheço, e, para suavizar o mistério, revesti-lo de uma aparência clara e provisória. Que aparência desejas que eu proponha? -- Perguntou o Sr. Marcondes.
- Qualquer uma, desde que me instruas nalgo. -- Respondeu Susana Antonovna.
- Aprendamos latim, então. É difícil, cansativo, e por isso mesmo uma aparência que, nos desgastando, jamais nos cerrará na ilusão de que controlamos os nossos propósitos.
- Muito bem. Qual a primeira lição?
- De latim?
- Que outra poderia ser? -- Perguntou Susana Antonovna.
- Poderia ser um ou outro pré-requisito gramatical, quando não ambos. Não se tira o conhecimento de latim do nada, a não ser que se seja Deus, se bem que ao criar o mundo ele já tinha consigo um modelo em mente.
- Será portanto, um trabalho redobrado, tão formidável quanto a criação do mundo? - Perguntou Susana.
- Não te preocupes, eu há pouco abri mão de um queijo parmesão para poupar esforço; sempre tendo a seguir essa lei. -- Tornou o Sr. Marcondes.
- Não há muito de que se gabar aí, me parece. -- Tornou Susana.
- Ajamos, então, não conforme a minha preguiça, mas com um esforço que se assemelhe mais à liberalidade de Deus, ao criar os Céus e a terra com o fito de nos comunicar as suas riquezas.
- Qual é o aquecimento para semelhante empreitada? -- Perguntou Susana Antonovna.
- Dize-me: o que é um verbo?
- Uma palavra que indica ação. -- Respondeu Susana Antonovna.
Muito bem. Que ação é expressa pelo verbo na frase "José é latinista"? -- Perguntou o Sr. Marcondes.
- A ação de existir.
- Mas o fulano da frase não está fazendo nada, quando muito ele estudou um pouquinho de latim para se gabar ou pôr no currículo. Não é como a frase "José estuda latim".
- Touché. -- Concordou Susana Antonovna.
- Que lição se aprende desse exemplo? -- Perguntou o Sr. Marcondes.
- Que eu não sei exatamente o que é verbo?
- E...
- Que a linguagem é como uma turba selvagem difícil de se dominar. -- Respondeu Susana Antonovna.
- Uma linguagem inusitada, e nem por isso pouco familiar. Eu tenho mais pegadinhas de onde veio esta. Mas me parece que, se alguém aprendeu, outrem também o pode.
- Que outro elemento -- acrescentou Susana lembrada da rainha de copas -- pode confortar mais o aluno?
- Vê o latim como as estrelas do céu. Foram criadas para dar sinal dos tempos determinados, e cada uma, embora se mexa, tem uma variação que não varia. É o latim. É puro latim. Ele está lá, quer o conheçamos ou não, impávido colosso, é só uma questão de ver o que ele significa, e ele esperará sempre.
- Já não me parece isso tão confortante. Talvez eu morra e ele permaneça, rijo como é, e eu mutável e imperfeita como o são os homens.
- Ao cabo os homens já conquistaram coisas mais elevadas que o latim. -- Tornou o Sr. Marcondes.
- E também desceram mais baixo que ele. -- Replicou Susana Antonovna.
- Vê: verbo é aquela palavra que diz algo de algo. "Ele comeu macarronada sem parmesão". O verbo diz dele que comeu parmesão.
- E isso se aplica a "José é latinista"?
- Como não? O verbo existir está dizendo de José que ele é, que ele existe -- como latinista. Simples.
- O que é diferente do que eu dissera, porque existir não é uma ação?
- Sim.
- Mas -- principiou a objetar Susana -- se digo de Homero que ele é latinista, no caso de ele nunca ter existido, estaria certo?
- Em certo sentido estaria errado, porque ele não sabia latim. Mas, ainda que ele não existisse, de algum modo estaria certo porque se quis dizer que a propriedade de existir, a característica de existir, é acidental a Homero.
- O que é "acidental"? -- Perguntou Susana.
- É uma coisa muito simples. Existem dois tipos de coisas, particulares e universais. Eu e você somos particulares, mas o homem em geral é universal. O universal é aquilo que se diz que mais de um particular é, ou algo assim. Deixemos o particular de lado. O universal tem coisas a si pegadas, como ao gelo o ser sólido, e à água líquida. O acidente é aquilo que não se pega ao universal na hora de defini-lo, como ao homem o ser russo ou brasileiro, ou a um homem fictício o existir.
- Quanto conhecimento! -- Exclamou Susana Antonovna.
- O que eu quisera é ensinar, não impressionar, sem bem que uma coisa e outra podem equivaler, tanto que aconteceu.
- Mas o teu conhecimento é algo formidável...
- Não te admires, muitos homens souberam muito mais, e além disso me parece que qualquer anjo sabe bem mais que qualquer homem. Deus os criou em um número quase ilimitado, portanto eu não faria uma bela figura intelectual entre muita gente.
- Oh não sejas modesto.
- Por que não? Os anjos são não apenas mais inteligentes que eu, são mais poderosos, e suspeito que ninguém lhes possa igualar em modéstia.
- Mas como sabes que são poderosos? -- Perguntou Susana.
- Em uma ou outra passagem da Bíblia se lhes menciona como exércitos. -- Respondeu o Sr. Marcondes.
- Muito bem. Voltemos ao verbo. -- Pediu Susana.
- Já passamos o verbo. Agora estamos estudando o sujeito.
- O que tem ele?
- Ele é uma coisa na lógica e outra na gramática. Na gramática ele é o que faz a ação. "José comeu o macarrão". O sujeito é José.
- O.K. Mas e quanto ao "José é latinista"? -- replicou Susana, com desconfiança.
- Neste caso o sujeito gramatical coincide com o sujeito da lógica. -- Respondeu o Sr. Marcondes.
- Por quê?
- Lembra dos universais e particulares?
- Sim. -- Respondeu Susana, e quase fez escorregar o carro por descuido. Não significa isso que o ponto perguntado era particularmente difícil. Nem eu digo, nem o Sr. Marcondes seria capaz de afirmar que à sua inteligência escapasse semelhante detalhe. Não é a ignorância que distrai o cuidado à gente. Quando muito o cansaço ou a falta de descanso; também pode ser o perder a fé no fim da explicação; mas esse cansaço se desfaz com o descanso, e na falta deste com a vontade de ir ao cabo das coisas. O tango é difícil de dançar, e também requer cuidado, mas se o adora. Eu próprio não enjeito um sanduíche mesmo quando o pão é duro e um dos meus dentes está cariados. No fim, tudo é que realizemos aquilo a que nos propusemos, como bons dançarinos.
- Pois bem -- tornou o Sr. Marcondes -- homem é universal e susana particular. Animal é universal, e José é particular. A palavra que designa um universal é um predicado. Quer saber um sinônimo de predicado, outro nome para o predicado, de certo modo?
- Quero. -- Respondeu Susana.
- Categoria. -- Respondeu o Sr. Marcondes.
- Sim, mas por que o sujeito da lógica é o mesmo sujeito gramatical, em "José é latinista"? -- Perguntou Susana.
- É que na lógica o termo que recebe um predicado, ou universal, é chamado sujeito. Se você é chamado latinista, "latinista" é o predicado, e "você" o sujeito.
- Em "Susana é inteligente", inteligente é o predicado. Susana o sujeito.
- Isso.
- Em "José come macarrão", quem é o sujeito?
- No sentido gramatical é o José, porque ele pratica a ação. No sentido lógico também, porque eu posso recompor a afirmação assim: "José é algo que come macarrão". "Algo que come macarrão" vira o predicado. -- Respondeu José.
- Mas o macarrão também pode ser sujeito. "O macarrão é algo comido por José". "Algo comido por José" aí é o predicado.
- De fato. Isso porque se pode montar a frase "O macarrão foi comido por José". Quem praticou a ação aí foi o macarrão, em termos gramaticais.
- Parece complicado -- confessou Susana.
- Pois deixemos a questão. -- Propôs o Sr. Marcondes.
- Se hemos de deixar a questão como vou aprender o latim? -- Perguntou Susana.
- Deixar a questão não é o mesmo que não aprender o latim. É por humildade, e para aprender, que deixamos a questão que no momento se afigura mais complicada para ir à parte mais fácil. Até os anjos correram o risco de decair, por falta de humildade. Alguns foram arremessados para fora do céu, por isso, e viraram demônios. Como os anjos que permaneceram bons, é melhor fazer breves assédios apenas e em torno dos pontos mais fáceis.
- Eis que voltamos -- disse Susana Antonovna -- à lei do menor esforço; em suma, ao teu parmesão.
- A lei do menor esforço possibilita o maior esforço. -- Concordou o Sr. Marcondes. Sucede -- acrescentou ele -- que enquanto retivermos uma serena obediência à lei da humildade, seremos mais capazes. Enquanto permaneceram obedientes os primeiros homem e mulher, Adão e Eva, pela razão controlavam as paixões suas, e porventura também os animais, por uma graça de Deus. Depois houve a queda, quando tomaram de um fruto que Deus lhes proibira comer, o fruto do bem e do mal.
- Mas tu me ensinas o latim ou o catecismo? -- Perguntou Susana.
- O que estiver mais à mão. Sucede que ambos os assuntos o estão, e por isso eu não perco nada em citar um e outro.
- Muito bem. Mas sucede que a Queda dos homens me parece um assunto tenebroso.
- Não te preocupes. O termo "céus e terra", em certo concílio da Igreja, chamado Concílio de Niceia, foi por assim dizer traduzido como "as coisas visíveis e invisíveis", isso significando que para além das coisas que nos chegam pelos sentidos existe uma realidade mais elevada, da qual faz parte também a nossa vida mental, por exemplo. Abarcando as coisas visíveis e invisíveis, segundo creio, todas as coisas são sustentadas por um Deus benevolente que a cada momento, possuindo poder sobre tudo, nos mantém na existência e impede que caiamos no nada. Deus está no comando, então não há que temer.
- E não obstante -- replicou Susana -- as pessoas temem e sofrem.
- Mas isso não significa que, mesmo desde a tua perspectiva, os seus temores e sofrimentos não possam ser ocasionados de algum modo pelo mesmo Deus que as governa.
- E por que ele faria isso?
- A explicação é a Queda. Mas está dito em um livro chamado Atos dos Apóstolos: "[...] pois na verdade ele não está longe de cada um de nós. Porque é nele que temos a vida, o movimento e o ser, como até alguns dos vossos poetas disseram: Nós somos também de sua raça..." -- Replicou o Sr. Marcondes.
- Até agora não explicaste nada sobre latim. -- Afirmou Susana, como cansada da insistência doutrinal do Sr. Marcondes. No fundo, a pobre temeu magoá-lo, e, por algum motivo, considerava consigo que não o desejava porque gostaria de ouvir mais a respeito de todas essas coisas.
- O latim... muito bem -- tornou o sr. Marcondes -- o que ocorre quando pomos um "s" em uma palavra se chama flexão. Mundo e mundos, cabelo e cabelos. Isso é uma flexão de número. Também há as de gênero, como ladrão e ladra. No latim certas palavras têm flexão de caso. São seis os casos para uma mesma palavra.
- Exemplo...
- Por exemplo: Susana, susanae ["susanê"] e susanarum.
- Hum. E quando eu uso cada qual?
- Isso depende.
- Sim, foi o que eu imaginei.
- Se se trata do sujeito, na frase -- continuou o Sr. Marcondes -- sujeito no sentido gramatical habitual, para melhor escaparmos à confusão, isto é, como quem pratica a ação, então a palavra vai para o caso chamado nominativo. "Nominativo" vem de "nome".
- Legal.
- Pode ser também o caso chamado "vocativo", e nesse caso a desinência, que é a parte final da palavra, terá um contorno diferente do nominativo. Se eu digo "o catolicismo, Susana, é a única religião verdadeira", o "Susana" da frase funcionou como vocativo. Quando a palavra na sentença assume a forma de um apelo ou chamado, "ó homens, estou aqui", "estou aqui, homens" temos o vocativo. É difícil não entender o vocativo, porque sempre está separado por vírgulas.
- Até mesmo com o exemplo pregas o catecismo. -- Observou susana.
- Por que não? Quanto mais catecismo melhor.
Susana se riu com franqueza. Ela sabia que o seu amigo lhe conhecia as manhas, por assim dizer, e para usar uma expressão tipicamente brasileira. Nem toda situação é sombria, e se sequer uma é sombria o bastante para acabrunhar, como mais ou menos colocou o Sr. Marcondes ao referir que Deus a tudo governa, eu não desminto nem a situação mesma o fez.
- Nesse caso ensina mais um pouco o catecismo antes voltar ao latim. -- Concedeu susana.
- "Creio em Deus Pai, Todo-poderoso, Criador dos Céus e da terra". Eis o primeiro artigo, de doze artigos, que compõem o Credo. -- Ensinou o Sr. Marcondes.
- Eu suponho que se as três pessoas divinas são igualmente todo-poderosas, como disseste em outra ocasião, terão todas participado da criação do mundo. -- Observou Susana Antonovna.
- Supões corretamente.
- E que mais. Qual o próximo credo?
- Queres dizer artigo.
- Certo. Qual o próximo artigo?
- Ele traz consigo uma noção a respeito da pessoa de Jesus Cristo, a saber, que são superabundantes as benção que descem sobre o homem por meio dele. O apóstolo João diz mesmo que se alguém confessa publicamente que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus. Quando o apóstolo Pedro o confessou, o próprio Jesus lhe disse: "Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus."
- Eu compreendo o que dizes, mas isso mesmo me carrega da seguinte dúvida. Se ele é antes chamado de Filho de Deus, e não de Deus diretamente, não seria a divindade dele posteriormente proposta pela Igreja? -- Perguntou Susana.
- Os profetas do povo judeu que se referiram ao messias que havia de vir para salvar o mundo amaldiçoado e preso pelo demônio se referiram a Ele em termos bastante convincentes em um sentido contrário ao da sua não-divindade.
- Ah sim? E o que eles disseram?
- Um profeta chamado Isaías disse: "Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamará Deus Conosco.". Também está escrito o seguinte: "[...] porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado; a soberania repousa sobre seus ombros, e ele se chama: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz.". Bem, essas são apenas algumas das profecias a respeito dele.
- De fato é impressionante.
- A salvação que dissiparia o pecado dos primeiros pais, o qual pecado foi passado à sua descendência, já está anunciada logo nas primeiras páginas do livro do Gênesis, quando Deus diz à serpente, que é o príncipe dos anjos arremessados para fora do Céu, "Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu ferirás o calcanhar.”. Ela há de ferir a cabeça dele. Essa ferida que Ele prometeu é um anúncio da salvação.
- Uma trama, em suma, mais séria que o latim. -- Observou Susana Antonovna.
- Sim. Talvez devamos voltar a ele mais adiante. Estou cansado. -- Disse o Sr. Marcondes, vendo que Susana estacionava o carro e também parecia cansada por sua vez.
- São seis os casos do latim? -- Perguntou Susana.
- Sim, Não são difíceis, sobretudo quando se os aprendeu. -- Gracejou o Sr. Marcondes.
- Eu posso pegar o parmesão ainda se quiseres -- propôs Susana.
- Obrigado, mas não, não é tão importante assim. Até mais.
- Até mais.
Pedro de Lima é escritor e estudioso independente.