Canções para o Coração
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por: New Optimism
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Data: Mon, 11 Oct 2010 Hora: 10:48 AM
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Há quem ache que a arte, e a música em particular, têm que estar repletas de marcas sentimentais. Outros há que apenas querem “curtir” e viajar pelos caminhos que o som (calmo ou agressivo, com muito ou pouco volume, clássico ou pós-moderno) lhes proporciona. Mas estarão as emoções e a música numa irremediável relação de “felizes para sempre”?
Não sendo uma temática virgem, já muitos tentaram descobrir o cupido deste enamoramento. Filósofos, psicólogos, musicólogos, biólogos, sociólogos, antropólogos e muitos “ólogos” mais debruçaram-se sobre ele mas pouco descobriram. A única conclusão a que todos chegaram foi a de que esta é uma ligação complexa mas muito, muito cúmplice. Mas será a música sentimental mais verdadeira do que outra, que aborde uma temática divergente?
Música com verdade
“Não, não acho isso de todo. Há muitas canções sobre emoções que me parecem muito vazias de conteúdo... Acho que tem muito a ver com o intérprete/autor conseguir fazer passar alguma verdade, de acreditares nas coisas que estás a ouvir”. A resposta é de Paulo Furtado, o senhor que, em Portugal, se move no rock e nos blues como ninguém, mais conhecido por Legendary Tigerman. Habituado a compor sobre sentimentos, admite ser raro lançar-se sobre um tema “específico ou mais racional”, e justifica: “talvez funcione como uma válvula de escape”. Com maior ou menor verdade, é sabido que muitos ouvintes e apreciadores procuram espelhar-se na letra de uma canção, quase que num acto de egoísmo, como se esta fosse endereçada a si e mais, tivesse sido escrita propositadamente para retratar o que lhe vai na alma. Intencional ou não, este é um comportamento que pouca gente se pode gabar de não ter tido.
No entanto, a música pode também servir como despertador de emoções, independentemente do seu conteúdo. Liliana Nunes tem 21 anos, é estudante de contabilidade, e canta nas horas vagas, com um amigo Dj. Para ela “é uma prioridade na escolha das músicas [que ouve], o despertar de sentimentos. Existem delas que basta a melodia para nos transmitir qualquer coisa” revela quem não considera as canções “não sentimentais” mais vazias, mas que se sente mais tentada pelas que apelem ao coração.
Ora, a música pode ser uma forma de expressão, mais metafórica está claro, que é levada a cabo pelo seu criador, pelo intérprete, e pelo público, que depois a usa para também ele transmitir as suas emoções. Mas não será cobardia da nossa parte, que mais facilmente consigamos transmitir o que sentimos através da música, do que de palavras, frontalmente? Liliana nega, convictamente: “cobardia seria se não o disséssemos. Chamemos-lhe uma forma mais suave de sermos verdadeiros”. Do outro lado da muralha, Tigerman concorda. Além disso e confessa que primeiro compõe para si, como forma de respeito pelo seu trabalho e pelo público que (tão religiosamente) o segue, ignorando se é pelo caminho do apelo e do uso de sentimentalismo que se obtém mais fãs: “não faço a mínima ideia”, assume.
Numa entrevista recente ao ‘Ípsilon’, suplemento semanal do jornal Público, o ex-Toranja Tiago Bettencourt foi claro: “ Nos meus afectos musicais tudo remete para emoções”. Influenciado pelo que ouve, e pelos artistas cujo trabalho admira, acaba por ver repercutir-se na sua música a propensão emocional. O seu trabalho, com ou sem Toranja, conta com letras que, ainda que não sejam todas reais, ganham vida nos seus discos e são capazes de tocar o coração do mais céptico ouvinte. Quem as ouve, facilmente se identifica com as histórias que contam, e a possibilidade de não prestar atenção às palavras que vão sendo cantadas é muito remota. O cantor deixou também escapar que, aliado a todo este sentimentalismo, o seu objectivo é evidente: “vou fazer música, vou fazer bem às pessoas, vou fazê-las todas felizes”.
Hinos e sentimentos
Na história das grandes músicas, daquelas que se tornam hinos de gerações, e que ficam gravadas para sempre na memória dos ouvintes, é recorrente que existam canções com letras tão emotivas, que passam a ser uma espécie de lema de vida dos que as ouvem. Olhemos, por exemplo, para o tema ‘Creep’ (ver letra) dos Radiohead, que na década de 90 se tornou um hit indissociável de qualquer adolescente da época, e foi alvo de versões de artistas como Prince ou Jeff Buckley. Supostamente inspirada uma rapariga por quem Tom York (vocalista da banda) se apaixonara, o tema colou-se a pele de ouvintes do mundo inteiro, que a aproveitaram para espelhar o seu amor.
Mas este não é um fenómeno apenas mundial. Usando alguns dos muitos exemplos que podemos encontrar na música nacional, “Circo de Feras” (1987), do álbum homónimo dos Xutos e Pontapés, ou “Amor” (1982) dos Heróis do Mar perduram até hoje como emblemas do amor, capazes de unir qualquer casal de pombinhos em plena fase de paixão. E quantas vezes o verso “Quero-te tanto” terá sido usado em modo de declaração entre um qualquer casal enfeitiçado pelo amor… Mas terão estes temas icónicos que deixar arrepiados quem os ouve, por conter tanta emotividade? Para Paulo Furtado “talvez não no conteúdo, mas de certeza na entrega”.
Mas se hoje, o mais usual é vermos o nosso rádio (ou o ipod nos casos mais evoluídos e modernos) inundados de canções que escorrem comoção a cada verso, se regressarmos poucas décadas atrás, apercebemo-nos que a realidade não é assim tão semelhante.
Outros tempos, outras músicas
Noutros tempos, a música era uma arma e as canções de intervenção, tão “socialmente activas”, eram uma moda urgente e muito necessária. Muitas delas, ainda que repletas de disfarces e recursos estilísticos, procuravam denunciar injustiças e promover novos caminhos; outras, mais cruas e destemidas queriam demonstrar descontentamento e opor-se a normas vigentes. A música não era só um divertimento, era também uma necessidade e um recurso. Com a chegada da liberdade, e o fim da urgência de disfarçar seja o que for, ou usar eufemismos para evitar represálias, não há mais o “aperto” de outros tempos, e a canção acabou por perder o condão interventivo, tempestuoso e activista, e deu lugar a um caminho de crescente expressão sensitiva.
Mas estando eles tão presentes na música, será que sobram sentimentos para o nosso dia-a-dia, para a vida real? A Humanidade precisa deles, a avaliar pelo gosto de quem faz e consome música… E ela continua, e há-de continuar a alimentar os corações. Até porque, usando sábias as palavras do Tigermam “Se não tiveres emoção na tua vida dificilmente a poderás ter na tua arte.”
André Santos
Sobre o Autor
Artigo publicado na Magazine "New Optimism".
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