Conversas com Susana Antonovna - parte 4
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por: Pedro Henrique Barreto de Lima
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Nº de Palavras: 6428
Data: Mon, 3 Feb 2014 Hora: 5:59 PM
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O senhor José Marcondes gostava de ir a um brechó na rodovia próxima da cidade, em Wisconsin. É tão comum usar desse nome, brechó, que não me aventuro a checá-lo no dicionário, embora talvez o faça antes de terminar esta sentença.
Brechó como lugar de comprar roupa, era termo tão estranho ao senhor Marcondes que figuraria fora do dicionário, e da língua das gentes. Mas se lhe referissem o brechó dos livros usados, ele perguntava, "mas sim, como não havia de conhecer o brechó de São Francisco de Paula, na rodovia da cidade!". Assim era seu temperamento, ou loucura, que lhe tirava da convivência dos homens para a convivência dos livros, ou ao menos para procurar nos livros os homens e a vida que pareciam ausentes cá fora. Sempre procuram um algo mais que não está lá, esses intelectuais, e quando avistam uma personagem de carne e osso, porventura de feições zangadas e nota promissória na mão, já não sabem que façam.
Mas este rapaz não assinara nota promissória, e tinha seu tanto de fortuna, quando menos de situação, para continuar a fugir da realidade correndo a ela, ao cabo encontrando-a de um modo que não ocorre muita vez a quem chamam average individual.
Como é doce ter uma situação, mesmo sem carro, caminhar pela rodovia para o brechó à cata de livros! Era nessa maravilha que pensava o próprio rapaz uma vez, enquanto lá ia pela rodovia.
Imagina, se podes, fachadas cobertas de neve, esquadrias de vidraça escurecida dos estabelecimentos, alguns trechos à margem descendo íngremes e permitindo a visão limpa de encostas menos densas de pinheiros que noutros cantos da cidade. Sobre a margem do asfalto ia lá ele, e eu não hei de negar que lia o Elogio da Loucura, enquanto caminhava.
Uma sombra dele se aproximou, enquanto caminhava. O Sr. Marcondes não cuidou que fosse ninguém, a princípio, e de fato não era ninguém. Foi quando essa mesma sombra principiou a sorrir que o rapaz, vendo e não vendo nada, a estranhou e sentiu-se confuso.
A sombra era o diabo. Outrem o retratou, como faço agora, inclusive na obra Sob o Sol de Satã, que não li, mas muito me agradou o filme, o qual aliás se saiu bem em Cannes, e se sairia também no Oscar se não fosse tão europeu. Mas que digo? Eu não entendo de filmes! Vê-se, já, que até o autor destas aventuras não é infenso à influência do orgulhoso rebelde expulso do céu, que se diz quer tornar todos orgulhosos e aversos à humildade. Que o diabo apareça numa história não é de se estranhar, mas a vida real é outra história, segundo pensou o próprio Sr. Marcondes.
A sombra não disse nada, só se quedou quieta, enquanto o Sr. Marcondes retomava a caminhada, o que vale dizer que talvez seja essa uma de suas ocupações junto aos homens. Um pensamento estranho, tenebroso, e que parece insinuar malícia diabólica, e tal perplexidade que não se a fixa na mente assim fácil, fácil, como era fácil ao Sr. Marcondes permanecer na leitura do Erasmo enquanto a serpente lhe seguia por detrás.
Por fim, a própria serpente, tão casualmente quanto eu falo a ti, leitor, principiou a falar a ele, enquanto permaneciam a caminhar:
- Um ateu diria que presencias uma alucinação e podes estar endoidando. Um espírita diria que vês o espírito de um antepassado. O protestante dirá qualquer coisa, conforme a impressão do momento. Tu mesmo duvidarás mil vezes da verdade diante de ti, porque é próprio dos homens evitá-la, negá-la e aviltá-la com tanta paixão e ira quanto disponham, mas esta mesma não é muita. Vós sois fracos e inconstantes até no mal, e por isso sois tão maus. O mundo é incompreensível a qualquer um de vós, e as vossas teorias não servem senão para alimentar a vossa nojenta aversão à verdade.
O Sr. Marcondes permaneceu atento a ver onde ia parar tal discurso:
- Vamos, senhor! Estás impressionado com os meus crimes? -- o Sr. Marcondes sequer pensara nisso, mas tal pergunta a este chamou atenção -- Eu sou um servo de Deus, como toda criatura, e o mais feio dos acontecimentos não é tanto minha culpa quanto dEle. A hipocrisia católica, que afirma ser tudo possível a Ele, lhe negou no entanto a possibilidade de isentar os homens do sofrimento, como poderia ser feito, e qualquer argumento contrário é puramente humano e insignificante. Eu já sei, eu interrompo a tua leitura e os teus afazeres. É que eu venho oferecer algumas graças a ti.
- Queres me oferecer graças? -- Perguntou o Sr. Marcondes.
- Como não? Tudo quanto mais prezas, dinheiro e mulheres. -- Respondeu a sombra, ao que o Sr. Marcondes olhou-o impressionado, porque tinha séria dúvida se alguma vez dera importância a uma ou outra coisa. -- Não tens gosto por dinheiro e mulheres? -- o Sr. Marcondes, ao ouvi-lo, principiou a ficar enojado -- Te darei essas coisas assim mesmo, e outras. Basta que te ajoelhes e me adores. Dize que me adoras uma vez apenas, e será o bastante, depois hás de te arrepender e ser salvo. Vamos, vamos, senhor! Não suportas uma pequena conversa familiar? Por acaso acreditas na Igreja Católica? Não há ninguém mais que o faça, nem mesmo quem a conheça profundamente, e por isso as verdades reveladas por Deus são tratadas com escárnio em toda parte, e toda memória de um mundo orientado por elas desaparece somo uma sombra, um sonho tenebroso. Eu digo-te: não és capaz de suportar ou mesmo conceber toda sorte de misérias e torturas que hão de padecer os homens apegados ao catolicismo -- neste ponto o Sr. Marcondes ouviu-o com desconfiança e bastante perplexo, porque a sombra parecia lisonjear de algum modo o catolicismo -- ah, não poderás suportar jamais o que há de desabar sobre os homens católicos.
- Tu bem sabes, segundo imagino, que eu pessoalmente tenho menos apego aos homens católicos que à doutrina, e que raramente visito os sacramentos. Por que então, dizes isso? Eu não me identifico a nenhum grupo, e desprezo os católicos, sendo esse um dos meus pecados. Queres me irritar, me impondo um discurso que destoa do interlocutor, confunde e amontoa níveis diferentes de sentido? -- Disse o Sr. Marcondes.
- Meu amigo -- tornou a sombra -- eu vejo que já não raciocinas corretamente, a experiência te abobou um pouco.
- O que queres?
- Que desistas da fé. Já não tens a Igreja, porque não visitas os sacramentos e desprezas os católicos. Joga fora também a doutrina, e lança-te no abismo. Por que acreditas que a Igreja é infalível, afinal? Por ser do contra, por odiar as pessoas que a odeiam e riem do que Deus procurou ensinar com caridade e sacrifício? Acaso julgas servir a Deus cheio de ódio e vontade de ver o castigo dos homens? -- Perguntou a sombra.
- Acaso és o meu juiz?
- Tu gostarias de estar diante do teu verdadeiro juiz agora? Gostarias que fosse o Dia do Julgamento, ou perdestes até mesmo, junto com o amor ao próximo, a vergonha dos teus pecados e do fruto dos teus orgulhos? Se eu te julgo é melhor sentir alívio que objeção, porque ao menos, conhecendo a tua miséria, não me é dado te lançar junto comigo no inferno, como eu gostaria.
- Eu acredito na doutrina católica, isso me basta, é quanto pude ser fiel a Deus, é quanto me satisfaz. Se eu morresse e me confrontasse com um Deus que não fosse católico, preferiria mil vezes fugir ao inferno e ficar abraçado a ti por toda eternidade, a permanecer na companhia de Deus, porque a revolta me abrasaria.
- Então não te importa a própria alma, embora a saibas corrupta e isso te angustie profundamente? E a taxista, Susana?
- O que tem?
- A alma dela é tão insignificante quanto a tua, ou lhe doeria que ela fosse ao inferno? -- Perguntou a sombra.
Aqui o Sr. Marcondes empalideceu, e porventura começou a tremer.
- Não me queiras mal por perguntá-lo, senhor, mas segundo o catecismo se ela não confessar que Jesus Cristo é o Filho de Deus, será contada com a multidão de almas que rumam para a minha prisão. Se não viver uma vida santa, há de ser consumida por um fogo sem fim. -- Acrescentou a sombra.
O Sr. Marcondes se perguntou por que a vida de uma estranha devia lhe dizer respeito e não encontrou resposta. Encontrou apenas isto: que se não lhe tinha todo amor do mundo, também não lhe detestava.
- Ah, como vós homens gostais de fugir à verdade! -- Observou a sombra. -- Eis o vosso infortúnio: que quereis fugir ao vosso infortúnio. Senhor, eu sou vosso inimigo declarado, como costuma repetir o texto de Maomé. O meu propósito é a vossa ruína e morte eterna, e eu vou procurá-la.
Com um sorriso, se foi a sombra. O senhor Marcondes, por outro lado, não tinha muito ânimo para sorrir, e a falar a verdade, sequer para permanecer de pé. Desabou no meio da neve, e notou curioso que todo o seu corpo tremia e latejava, não apenas pela neve, mas por qualquer coisa mais. Que eu e tu saibamos que coisa mais seja, não é de todo seguro, nem o contrário. A solução dele, bem católica, foi dizer uma ave-maria, mas quando principiou a declamar uma mão lhe tapou a boca.
- Se a virgem há de te ajudar ou não, -- disse ainda a sombra, que foi quem lhe tapara a boca -- cabe a ela decidir por si mesma; por mais que o deseje não posso te dar mais esta consolação.
A sombra deixou o Sr. Marcondes, e eu quisera poupar o leitor da confusa reação na qual se quedou ele, então. Imagina que ele duvidou mil vezes, somo o diabo dissera que fazem os homens. Podia ser loucura, e nesse caso, conforme fosse caindo nela, teria de dar adeus aos estudos e olá a um sanatório. Ou, talvez, fosse o diabo não um diabo, mas alma penada. Talvez o diabo viera puni-lo, da parte de Deus, por não ser protestante. Entretanto, a ideia de que houvesse uma verdade que não fosse católica lhe fez se bater por terceiras hipóteses que não estas.
Ah as hipóteses! Elas se multiplicam e pulam quais coelhos, na nossa mente. Pula aqui, pula ali, pula acolá. E quando agarramos uma delas, já não a preferimos tanto quanto o nosso bom e velho cão de estimação. O cão do Sr. Marcondes simboliza a doutrina, e escusado dizer, embora seja ofensa dizê-lo a qualquer um indiscriminadamente, essa doutrina não é nem a de Alan Kardec, nem a de Buda. Maomé não a foi compondo através dos séculos, nem um João Calvino teve contribuição notória na sua constituição; não, aliás, pareceria ela de todo agradável a um agnóstico.
"Contanto que o diabo", pensou consigo José Marcondes a erguer-se, "não consiga me demover da doutrina, as coisas não podem piorar muito mais".
O Sr. Marcondes ouviu uma buzina. Era Susana Antonovna, parando de carro sobre o acostamento.
- Que houve? -- Perguntou ela.
- Nada. Eu torci o meu tornozelo -- lhe explicou o Sr. Marcondes.
- Entra! -- clamou ela.
Que coincidência!, pensará o leitor. Lhe esquece, talvez, que a cidade deles era pequena, quatro mil habitantes, e talvez ela passasse com razoável frequência por aquele trecho. Talvez, é o que eu digo, e aliás não pareceu a nenhum deles grande coincidência; talvez nem mesmo ao diabo que ele vira havia pouco.
- Caminhando? -- Perguntou Susana.
- Antigamente se o fazia. Nos dias de hoje, menos. -- Respondeu o Sr. Marcondes.
- O que põe a perder o costume: o carro ou o desânimo do homem? -- Perguntou Susana.
- Qualquer dos dois. Todos caminhavam séculos atrás, desde o franciscano descalço até o renascentista elegante, como Petrarca.
- Já sei, alguém citou o Decamerão outro dia na televisão.
- Mas esse foi escrito por Boccaccio, não Petrarca; o Petrarca deixou ao Boccaccio alguma herança, na época.
- Quem foram eles? -- Perguntou Susana Antonovna.
- Eu ouvi falar que se deixaram fascinar demais pela literatura latina, pagã.
- Se opuseram à Igreja?
- Nem todo mundo se opôs à Igreja, se bem que a verdade seja de algum modo próxima disto. O Petrarca buscou a fama como poeta, como bom pagão e mal cristão, e o Boccaccio ridicularizou personagens religiosos nas suas histórias; ainda assim se consideravam cristãos, e não deixaram de se esforçar por isso sinceramente.
- E que época foi essa? -- Perguntou Susana.
- Mil trezentos e algo.
- Há muito.
- Há muitíssimo. Os papas não queriam mal a esses humanistas, interessados nos escritos humanos deixados pela antiguidade, tanto que patrocinaram o renascentismo, e deram boa vida a homens como eles. O resultado dos tremendos esforços de compilação pagos pelos papas foi à época, me parece, três mil obras na biblioteca vaticana. Não é muito, o número em si, é claro.
- Quem conservou esses escritos compilados até aquela época? -- Perguntou Susana.
- Dizem que foram os monges. De qualquer modo, desde o início do cristianismo, todos os santos e doutores se mostraram entusiastas da literatura latina pagã. Com ela aprenderam a escrever como bons retóricos, e não pouca riqueza cultural adveio dessa abertura aos antigos. Foi a época do paganismo, com aqueles deuses e aquela indecência mórbida, vista sob as alturas do cristianismo. Tudo o católico aproveita, de quem quer que seja, mesmo as rosas espinhosas dos pagãos. O católico é compreensivo, pelo menos deveria ser; ele só julga o que conhece.
- Nesse caso não houve qualquer conflito entre os humanistas e a igreja. -- Observou Susana.
- De algum modo houve duas renascenças, uma cristã, outra pagã. Se Boccaccio parece pagão, esse doutor da época, outros, como um certo Antonio Beccadelli, ou um Lorenzo Valla, eram paganíssimos.
- Mas o que quer dizer chamá-los assim? -- Perguntou Susana.
- É que Valla, por exemplo, dava uma importância grande à satisfação dos apetites carnais, e chamava às mais descaradas baixezas conformidades com a natureza; por outro lado Beccadelli acusou o papa à época de ser o culpado de todos os problemas da região italiana.
- Os escritores pagãos eram tão baixos assim, que incitavam esse tipo de pensamento? -- Perguntou Susana.
- Nem tanto, ou ao menos problematicamente. -- Respondeu o Sr. Marcondes. -- Por exemplo, um certo Cino da Rinuccini, que era versado nas letras clássicas, discutiu durante a Renascença que os pagãos enunciaram muitas sentenças conformes à temperança e aversas às paixões desordenadas.
- Mesmo assim os pagãos não conheceram a salvação cristã, conforme crês? -- Perguntou Susana Antonovna.
- A crença e a profissão de que Jesus Cristo é o Filho de Deus, são necessárias à salvação. e nenhum salvo pode não fazê-lo. Além disso essa salvação foi dirigida a todos os homens, de todas as épocas.
- Me fale mais a respeito -- pediu Susana Antonovna -- como é possível a alguém que nunca ouviu falar de catolicismo, ter sido salvo, ter tido dirigida a si a salvação de que falas?
- Há muito tempo atrás -- respondeu o Sr. Marcondes -- um homem chamado Abraão recebeu de Deus uma promessa: "Juro por mim mesmo, diz o Senhor: pois que fizeste isto, e não me recusaste teu filho único, eu te abençoarei. Multiplicarei a tua posteridade como as estrelas do céu, e como a areia na praia do mar. Ela possuirá a porta dos teus inimigos, e todas as nações da terra na tua posteridade serão abençoadas, porque obedeceste a minha voz".
- É essa a resposta? -- Perguntou Susana Antonovna.
- É essa a resposta. Jesus, que descende de Abraão, deu luz, e liberdade e salvação aos homens todos de todas as épocas.
- Nenhum homem será condenado ao inferno, portanto?
- É claro que muitos serão condenados. O importante é que Jesus libertou os homens, não de uma escravidão especificamente política e temporal; Ele libertou os homens do pecado e do demônio; Ele reconciliou homens e Deus. -- Disse o Sr. Marcondes.
- Falas com fervor, mas jamais viste esse Jesus.
- Eu quisera tê-lo feito. Ele foi o ungido que Deus prometeu desde muito.
- Ungido? -- Indagou Susana.
- Na tradição judaica os reis eram ungidos com óleo, como sinal do seu ofício. O mesmo acontecia com os sacerdotes, da tribo de Levi, uma das doze tribos dos judeus. Sucede que também os profetas eram ungidos.
- E daí? Em que isso importa? -- Perguntou Susana.
- Por coincidência Jesus é rei, porque soberano de toda humanidade; Ele é sacerdote, porque intercede pelo povo junto a Deus; por fim Ele é profeta.
- Profeta...
- Porque age sob inspiração divina para se dirigir aos homens, ou algo assim. Eu próprio não estou inteirado.
- Ele então -- retomou a linha Susana -- era rei, sacerdote e profeta?
- Não apenas isso, mas ele era o profeta dos profetas. Todos os profetas foram discípulos de Jesus, e tiveram como principal encargo o anunciar como salvador.
- Eu não acredito que Ele seja Deus, José. -- Declarou Susana.
- Isso não me surpreende em nada, muitos outros também não. Se acreditasses eu estaria mesmo chocado, crendo-te uma assombração, ou o diabo disfarçado.
- Queres que eu me compadeça do teu isolamento espiritual e me converta, por isso?
- Não há de que se compadecer. É por ti que me preocupo, não por mim. Eu confesso que já estou muito cheio de ressentimento para acreditar na minha salvação. Mas tu, Susana, tu podes te salvar, com facilidade. Tens um coração manso, que se dobraria mais facilmente à caridade que muitos outros. Basta ter a fé, que eu tenho e te falta, para te assegurares da salvação.
- Eu pensei que vivesses seguro do teu banquete sem fim. -- Declarou Susana.
- Eu estou seguro apenas, no momento, de que não controlo as minhas violentas paixões suscitadas pelo orgulho, como o desejo de ver a condenação eterna dos que não creem no catolicismo.
- Tu o desejas?
- Sim, em muitas ocasiões. Se diz que Jesus reinará na casa de Jacó, isto é, entre a posteridade de Abraão, avô de Jacó, e o seu reino não terá fim. Eu não estarei lá, se não vencer o meu ressentimento, mas tu talvez te salves... -- Disse o Sr. Marcondes, interrompendo-se. O motivo, será preciso trocá-lo em miúdos? Existe uma coisa chamada retórica, e outra a que ele fazia. Uma podia ser de utilidade, a outra nem muito, nem pouco.
- Jesus é rei, sacerdote e profeta, tu dizias. -- Disse Susana Antonovna.
- A plenitude do Espírito Santo e uma efusão copiosa de graças estavam em Jesus e não poderiam estar semelhantemente em nenhuma criatura.
- Ele então devia ser mais eloquente que os retóricos pagãos que encantaram os doutores da Igreja. -- Observou Susana Antonovna.
- Eu nunca olhei por esse lado, Susana. Não sei bem o que pensar a respeito.
- O que faz esse Jesus hoje, o que o teu senhor se dedica a fazer?
- Ele protege a Igreja, governa os homens. O bom e o mau estão contidos dentro do limite do seu reino, e portanto todos têm um direito relativamente ao reino, mas os bons é quem realmente são agraciados e mais que tudo experimentam a bondade de Jesus. Todo poder, dignidade e majestade possíveis a um homem foram dados a Jesus. Deus lhe deu o governo de todo o mundo, e sua autoridade será máxima e total no dia do juízo.
- Ele é Deus, e ao mesmo tempo o governo do mundo lhe foi dado por Deus? -- Objetou susana, como incentivando-o a elaborar mais nesse ponto.
- Jesus é a segunda pessoa da Bem-aventurada Trindade, gerado pelo Pai desde sempre, e igual a Ele e ao Espírito Santo em todas as coisas. Não se deve sequer imaginar desigualdade entre as Pessoas Divinas, Susana.
- Ele é filho em dois sentidos?
- Exato, ele tem uma natividade dupla. A vida em que foi gerado desde a eternidade, pelo Pai. E a geração pela qual assumiu a natureza humana, além da natureza divina que sempre possuiu.
- Agora sou eu quem confesso nunca ter visto as coisas por esse lado -- Disse Susana.
- Ele é um só filho, porque as naturezas divina e humana se encontram em uma só pessoa. -- Continuou o Sr. Marcondes.
- Que mais?
- Relativamente à sua geração divina (aquela desde a eternidade) Ele não tem irmãos ou co-herdeiros -- é Filho único. Entretanto...
- Entretanto... -- Repetiu Susana em voz alta, como distraída.
- Ele considera irmãos os que por fé receberam Cristo (o salvador ungido), os que por obras de caridade aprovam a fé que receberam e que creem internamente. Por isso Jesus é chamado, se me lembra, pelo apóstolo São Paulo "o primogênito entre muitos irmãos".
Susana de algum modo sentiu-se assombrada com tais dizeres. Eram ordinários, palavra que cabe melhor aos gatunos que rondam os cais do terceiro mundo que às verdades reveladas por Deus; eram ordinários, repito, mas impressionantes quando discutidos detalhadamente... Na falta de uma palavra amiga o nobre fica vulgar, ao mesmo tempo o vulgar fica nobre. Os gatunos passam a se dar mais respeito, os barões se esgueiram pelas esquinas como procurados. Também há os barões gatunos, mas têm um donaire que compensa o quão ordinário sejam, e dá-nos mesmo uma satisfação quando nossa boa fé lhes é de utilidade. Estes aliás, são espécie em extinção; os gatunos que tu e eu conhecemos são pobres, pobríssimos, quase lhes faltam os centavos para o café.
- Dize-me mais -- pediu Susana.
- Por causa das duas naturezas que tem, Jesus recebeu as propriedades de ambas. É todo-poderoso, eterno, infinito, porque é Deus; entretanto, foi possível a Ele morrer, sofrer e ressuscitar, como homem. Acresce a isso que ele seja senhor por uma propriedade de ambas as naturezas. Ele sofreu porque os homens podem sofrer. Ele é eterno, porque Deus o é. Ele é senhor, sendo isso possível a Deus e a um homem.
- Eu creio que tal é bastante impressionante -- afirmou Susana.
- É bem simples. O Filho é Senhor. O Pai é Senhor. Mas há um só Senhor. A qualidade de redentor, em Jesus, ademais, lhe permite ser duplamente chamado de senhor.
- Por quê? -- Perguntou Susana.
- Porque com a sua humilhação e morte, Deus Pai o exaltou acima de todos. Como diz o apóstolo São Paulo: "Por isso Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, no céu, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai."
- Que mais?
- No evangelho de São Mateus está escrito: "Todo poder me foi dado no céu e na terra".
- Jesus diz isso?
- Sim. Ele também é chamado Senhor porque em um só pessoa ambas naturezas estão unidas... e por isso todas as criaturas a Ele estão sujeitas... Ele é senhor sobretudo daquelas almas que com fervor o obedecem.
- Como é natural -- observou Susana.
- Tudo quanto eu disse impressionou-te? -- Perguntou o Sr. Marcondes.
- Sim -- respondeu Susana.
- Impressionar-te-ás também com isto:diante das graças e privilégios da fé, que os cristãos devem a Cristo, é obrigação deles serem-lhe completamente devotados, e para sempre, como a redentor e Senhor.
Susana sorriu, enquanto lhe deixava diante de casa. O Sr. Marcondes lembrou que devia fingir haver torcido o tornozelo. Uma pessoa calculista, sem dúvida, ele era. Não de todo, pois nesse mundo imprevisível quem calcula o que seja?
Sobre o Autor
Pedro de Lima é escritor e estudioso independente.
Pontuação: Não pontuado ainda
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