Conversas com Susana Antonovna - parte 1
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por: Pedro Henrique Barreto de Lima
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Nº de Palavras: 2705
Data: Sat, 28 Dec 2013 Hora: 2:34 PM
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Um rapaz de modestos modos, posto que ostentoso na imaginação, fez amizade com certa taxista de Wisconsin, onde estiveram mais de uma vez.
O senhor José Marcondes e Susana Antonovna conversavam muito, sobretudo quando ele chamava o táxi; talvez não por necessidade. Entretanto, as mais suaves inclinações são fruto da necessidade, e quem é que escolhe fazer o que não é forçoso? Seja como for, ou como fosse, palreavam como gente grande, e me parece que porque eram ingênuos e recolhidos como crianças.
Eis uma de suas conversas:
- Da mercearia pude ver que eras a motorista. Mundo pequeno.-- Declarou o Sr. Marcondes, com uma sacola na mão, adentrando a van amarela e pondo automaticamente a mão sob o queixo para melhor mirar a paisagem, invernal, que muito o deleitava. Era desleixado nos modos e voluptuoso no se encher de impressões, mas todo o seu espírito era movido por uma cautelosa humildade que lhe fazia repensar suas palavras em pensamento, e repensar o pensamento em pensamento, de um modo um concentrado demais, se bem que pouco linear. Era um homem sozinho que, no entanto, se podia dizer casara com a reflexão.
- Ah sim?! -- tornou a Sra. Antonovna com estável e perplexa amistosidade, cuidando que ele sabia bem que em uma cidade de quatro mil habitantes o encontro era de se esperar. A dizer a verdade, a amistosidade dela não era tão estável que não vibrasse, nem tão vibrante que lhe tirasse da mesma posição, como é comum entre os taxistas.
- Ouvi o discurso sobre economia de um cara chamado Peter Schiff, no youtube, hoje pela manhã. -- Declarou Marcondes.
- O que ele tinha para dizer de novo? -- Perguntou a Sra. Antonovna.
- Nada, eu asseguro. Mas não é culpa dele, e nem minha, porque eu não creio ter feito nada errado. É que já vira esse mesmo vídeo muitas vezes. A economia, porém, me parece ser um tipo de ciência na qual ninguém diz novidades, tanto mais quanto seja isso precisamente o contrário do que a audiência dos assuntos a si relativos deseja. O Peter Schiff, no entanto, quebra a regra que acabei de anunciar: ele não é nada aborrecido para se ouvir, seja pela novidade, seja porque ele fala bem.
-Alguma nota particular, nele? -- Perguntou a Sra. Antonovna.
- Nenhuma -- respondeu Marcondes com ânimo ligeiro -- exceto que ele usou a expressão "Gee!", isto é, "Jesus!", quando recordava um caso. Em português falamos algo diferente, "credo!", ou algo assim.
- "Credo!"? -- repetiu de si para si a Sra. Antonovna. -- O que significa isso?
- É "creio" em latim. Também, sobretudo como raiz dessa exclamação, tem a expressão de uma profissão de fé, ou crença cristalizada em uma fórmula; essa profissão de fé, o Credo, tem o nome extra, se não me engano, de "símbolo dos apóstolos". Pelo menos é o que eu ouvi dizer, a respeito do catolicismo.
- Aposto que o senhor sabe essa fórmula de cor -- observou Susana.
- Eu receio que você tenha perdido a aposta; ou antes, eu é quem perdi com essa observação. -- Declarou o Sr. Marcondes.
- O quê? -- perguntou a Sra. Antonovna.
- A ilusão de ser uma pessoa piedosa, isto é, dedicada à religião. Essa ilusão é um daqueles tesouros que existem enquanto não se lhe notam, e sucede que me o tiraste agora. -- respondeu o Sr. Marcondes, ironizando a si mesmo, e acaso perguntando-se o que Deus acharia de semelhantes palavras.
- Vamos, senhor! O Credo não pode ser muito longo. Decore-o hoje de uma vez por todas. -- Disse a Sra. Antonovna, procurando animá-lo.
- Não é apenas o Credo -- tornou o Sr. Marcondes, reflexivo -- é que no catolicismo, me parece às vezes, tudo está ligado a tudo, e se desconheces algum detalhe, desconheces a coisa toda, se não conheces a coisa toda, qualquer detalhe é incompreensível.
- Quantos detalhes há ai, meu Deus? -- Perguntou a Sra. Antonovna com sincera angústia e identificação, posto que suaves em aparência, como tudo nela. O Sr. Marcondes sorriu e, fitando as encostas que passavam no correr do carro, se perguntou o mesmo.
- A doutrina católica é dividida em artigos -- principiou ele depois de um instante -- , sendo tu bastante cética em religião, se não de todo, ao menos um pouco, talvez o ignore?
- Ignoro um pouco, mas essa ideia em si me é familiar. -- Respondeu a Sra. Antonovna, fitando-lhe rapidamente desde o espelho retrovisor com a bochecha levantada, como quem dissesse "mereço mesmo a humilhação de ser confrontada com a minha ignorância?". Oh, leitor, não lhe queiras mal pelo amor próprio; nem ao Sr. Marcondes pela inadvertência. Sucede que todo mundo conhece mais do que parece, e se tal não é verdade, é de se admirar que não seja. É possível, como sucedeu comigo mesmo, ouvir dezenas de citações de Henry James, e ao cabo ser confrontado com a ignorância do mesmo. É em vistas disso, note-se, que se exclamou acima (gestualmente), e com certa propriedade, "mereço mesmo a humilhação de ser confrontada com a minha ignorância"?
- Pois ouve isso -- tornou o Sr. Marcondes, ignorando todo o conflito interior da interlocutora e, acalorado, se pondo a discussão -- , decerto não ignoras que artigo vem da ideia de articulação, ou junta. Isso porque a junta está relacionada a diferentes membros, como o cotovelo ao braço e ao antebraço. Se usa o termo artigo, aplicado à doutrina, portanto, porque a doutrina é considerada um conjunto de juntas, cujo significado particular é ligado ao significado do todo. Cada artigo se liga àquele que o segue.
- Compreender um artigo isolado, portanto, leva tempo... -- Concluiu a Sra. Antonovna -- E receio que tal empreendimento seja bastante enfadonho.
- A maioria das pessoas que deram atenção à parte mais elementar da doutrina foi de opinião diferente, ao menos considerando que houve briga a respeito. -- respondeu o Sr. Marcondes.
- Que briga? -- Perguntou a Sra. Antonovna.
- Imagina só que desde sempre foi controverso o reconhecer a Santíssima Trindade, a saber, que Deus é um só, que no entanto as pessoas divinas são três, e que há certas características tradicionalmente atribuídas a cada uma delas.
- Eu sei, o Pai, o Filho e o Espírito santo. -- complementou a Sra. Antonovna.
- Sim. -- Confirmou o Sr. Marcondes.
- Para mim já é difícil acreditar em Deus -- confessou a Sra. Antonovna -- na Santíssima Trindade... eu receio que seja até mais difícil.
- O que para mim é assunto, ou objeto, para perplexidade. -- Declarou o Sr. Marcondes. -- Acreditar em Deus, em certo sentido, é fácil. A coisa se resume em acreditar que Deus criou os céus e a terra, e tudo que há, e governa todas as coisas. Eu estou perfeitamente a vontade com essa ideia.
- De fato? -- Perguntou Susana.
- Sim. Sobretudo porque isso foi afirmado pela Igreja Católica, Apostólica e Romana.
- Porque a Igreja o disse tu apostas? -- Perguntou a Sra. Antonovna, com bastante sinceridade no tom de voz.
- Por acaso se chama ao resultado de uma soma simples, coisa evidente, digamos a soma de dois mais dois? -- Perguntou o Sr. Marcondes.
- Sim, porque é bem claro. -- Respondeu a Sra. Antonovna.
- Existe um outro tipo de evidencia -- declarou o Sr. Marcondes --, se trata de uma certeza e segurança advindas da fé. Podes estar certa, acreditar, para um católico, deve ser o mesmo que estar convencido sem hesitação.
- Mas de nada duvidas? -- insistiu ainda a Sra. Antonovna. Marcondes fez que sim, sem gastar palavra, o que denota impaciência; no fundo, alguma hesitação. Cada um desses sentimentos era tão bem distribuído que ambos podiam pular nele ao mesmo tempo. A impaciência se devia a que outrem que ele encontrara, não a sua amiga taxista, tinha muita dificuldade em acreditar que fosse possível a alguém realmente acreditar no catolicismo. Por si só a frustração de viver em um mundo onde isso podia acontecer bastava para lhe tirar a voz, não apenas porque principiava a ficar bravo, mas porque queria fugir do mesmo, mirando a paisagem. A hesitação se devia a que, de fato ele carregava uma ou outra dúvida, quando não ambas; mas se tranquilizava com o fato de serem pontuais, e ao cabo, e contraditoriamente, bastante obscuras quanto ao alvo da dúvida, não tocando frontalmente na doutrina.
-- A minha certeza é suficiente. A mesma certeza a que eu cheguei foi alcançada por filósofos antigos, quanto à existência de Deus, e outros pontos. Eles investigaram a natureza, dando-se a muitos trabalhos, e se arriscando a erros para mim, católico, desnecessários. A fé me dá o que um labor amargo deu a eles, instantaneamente, e pode fazer o mesmo para qualquer pessoa, por simples que seja. A fé permite que se passe a ver, e entender, o que antes era inimaginável. E um dos entendimentos que a fé proporciona consiste justamente na impossibilidade de dúvida, por meio da fé. A curiosidade arrogante é um traço de quem não tem fé, se eu tiver dúvida é porque ainda não tenho essa fé de que falo.
- Tu és um religioso. Eu suponho que Deus exista -- replicou Susana -- mas se o fizer não será o caso de acreditar em tudo que a Igreja diz a respeito dele.
- Mas não vês que a fé, ao contrário dos meios naturais da razão, é uma via bem mais fácil para se assegurar de Deus? E que o conteúdo específico da fé é o de que a Igreja é depositária? Por certo não vês, mas se visses, te maravilharias comigo.
- Do quê? -- perguntou Susana, rindo-se em expectativa.
- A fé perfura e adentra os Céus. Sem dificuldade e rapidamente. Compreender verdades sem as quais a realidade nos pareceria mais obscura e morta, como não chamar isso de um enorme privilégio? -- Redarguiu o Sr. Marcondes.
- Eu começo a ver o que queres dizer, e não me sinto indiferente a esse ponto. -- Respondeu-lhe a Sra. Antonovna. -- Mas receio que a conversa tenha de parar por aqui.
- Por quê? -- Perguntou o Sr. Marcondes.
- Eu estacionei diante do teu alojamento e tenho de apanhar um cliente daqui a pouco. Até mais, então? -- Se despediu a Sra. Antonovna.
- Até mais -- Tornou o Sr. Marcondes com suave resignação.
Sobre o Autor
O pedagogo Reuven Feuerstein destaca a fase de exteriorização (output) como essencial ao conhecimento. Nesse espírito o autor se dedica à exteriorização, em notas, de tópicos que são do seu interesse.
Pedro Henrique de Lima, nascido a 25/06/1987, escritor e estudioso independente.
Pontuação: Não pontuado ainda
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