Conversas com Susana Antonovna - parte 2

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por: Pedro Henrique Barreto de Lima Total leituras: 106 Nº de Palavras: 4381 Data: Sun, 5 Jan 2014 Hora: 2:12 PM 0 comentários

Se José Marcondes, o jovem brasileiro que tinha a Susana, patronímico Antonovna, por amiga, lhe perguntou alguma vez, quando ela o apanhava com o táxi, como viera parar em Wisconsin, eu não sei dizer.

Mas creio que em uma dessas caronas ela mencionou que viajara desde a Rússia para os Estados Unidos muito jovem, e sozinha, o que é admirável em uma criança, até mesmo em um adulto. Nem toda aventura do mundo é dos grandes, nem todo enfado dos pequenos. Mas que digo? Muita vez, quase sempre, ao menos me ocorre agora e em outra ocasião, a criança parece ignorar o enfado. Eu mesmo só lhe esqueço na hora de dormir serenamente e quando sou lisonjeado, e essas coisas não são muito frequentes.

O Sr. Marcondes mirou em fantasia essa viagem, e lhe pareceu que devia ter sido dolorosa, ao mesmo tempo doce.

- Bem, foi o que se passou. Eu já vivi mais circunstâncias do que posso contar -- Respondeu Susana Antonovna.

- Eu não. Eu sou um homem simplório, a minha vida é um disco arranhado, sem muito que notar, senão o enfado, o qual por sua vez pode ser uma linha narrativa tão exuberante quanto tortuosa, e é o mais que fazem essas vielas, se apresentar tortuosas. -- Tornou o Sr. Marcondes.

- Tu és o homem mais misterioso que conheci. -- Declarou Susana, mãos no volante e a mesma serenidade vibrante de sempre, tanto que sequer se movia para destacar o bom humor, indo o seu espírito a desembocar em sadio sorriso.

- O ser misterioso é de fato um elogio, e um atributo divino, na verdade. -- Replicou o Sr. Marcondes.

- Nesse caso dizer de alguém que é misterioso será adorá-lo? -- Perguntou Susana.

- É uma pergunta que faz sentido. Se diz que Deus tem uma sabedoria infinita, que constitui um mistério insondável. Os nossos mistérios pessoais podem ser explicados por aquilo que Deus não ignora a respeito, e a opinião dEle não será certamente desprezível, não importa o quanto conheçamos o nosso mistério. Ser misterioso talvez seja o mesmo que participar, em colaboração com Deus, do esconder o grande mistério que ele contém, e que não nos é dado conhecer. Uma colaboração modesta, por certo, mas que Lhe aprouve nos conceder. Ele já nos deu muito, talvez mais do que saibamos, se isso significa algo. -- Respondeu o Sr. Marcondes.

- Deus é tão rico assim, por trás do mistério que nos apresenta? Afinal, quem ele é? Como ele é? -- Perguntou Susana.

- O que sei sobre Deus, para ser breve, é que ele é melhor do que tudo e todos. -- Respondeu o Sr. Marcondes.

- De que modo? -- Tornou a sua amiga.

- A alegria e felicidade de que ele está carregado supera a da pessoa mais feliz que conheceste. A pessoa mais bela, não é tanto quanto ele. Ele é mais inteligente, mais bondoso, mais amoroso do que qualquer um. E também é mais poderoso. Basta querer para tudo fazer, embora nem tudo quanto ele possa fazer nós possamos imaginar.

- Nesse caso quisera eu ser Ele! -- Exclamou Susana.

- Ser como Ele não dá, mas ser salvo é o mesmo que participar da vida íntima dEle, e isso é mais do que merecemos, sobretudo é mais do que imaginamos.

- Tu queres ser salvo... -- Observou Susana.

- Todos tem direito a um salário, se o meu coincide com ganhar o jogo da vida, e com o jogo uma eternidade sem qualquer sofrimento, em um banquete sem mácula e... sem fim; bem, assim seja! -- Afirmou o Sr. Marcondes.

- Esperas um banquete? -- Perguntou Susana.

- Algo por aí. Se a imagem não vale mil palavras, valerá ao menos por uma imagem. -- Respondeu o Sr. Marcondes.

- Por que Deus não concede-te desde já o banquete sem fim?

- Porque ele é meu Pai. -- Respondeu o Sr. Marcondes.

- Perdão? - Perguntou Susana Antonovna, sinceramente procurando aprender.

- Se perguntares a uma criança por que ela obedece o seu pai, dará ela a resposta por extenso ou uma bem parecida com a que acabei de dar? -- Indagou o Sr. Marcondes, por sua vez.

- A segunda opção. Mas acaso és uma criança? -- Perguntou Susana.

- Das mais choramingonas. -- Respondeu o Sr. Marcondes.

- Tu és engraçado. -- Tornou Susana, rindo-se abertamente. -- Por acaso é essa a ideia que tens de Deus, como um pai benevolente? Ele é bom para todos?

- Ele foi benevolente o suficiente para nos conceder a vida, como os pais fazem sempre; e ainda, não cansado em nos presentiar, desejou nos adotar, para que nos tornássemos filhos dEle como Jesus Cristo.

- Como? -- Perguntou Susana Antonovna.

- Eu falo da adoção que nos torna salvos. -- Respondeu o Sr. Marcondes.

- Hum.

- É um mistério. -- Respondeu o Sr. Marcondes. -- Aliás o catolicismo fala muito a respeito porque de fato há muitos mistérios.

- Como é aquilo da Santíssima Trindade mesmo? -- Perguntou Susana, como reminiscente.

- São três pessoas e um Deus. -- Declarou o Sr. Marcondes.

- Ah sim. Um fórmula absurda. -- Replicou Susana.

- Misteriosa sim, absurda só figurativamente, porque tem em comum com o absurdo o fugir à unidade explicativa. No caso do mistério, isso sucede porque nos falta a informação com que demonstrar a coisa do princípio ao fim, o que é aliás desnecessário aos olhos da fé.

- Dize-me mais sobre a Trindade. -- Pediu Susana Antonovna.

- Existe um terceiro papel que torna Deus um pai, aparte de nossa filiação e adoção. É que faz algum tempo, aliás a eternidade mesma, que ele gerou a segunda Pessoa divina, o Filho, que é o Jesus Cristo que falou aos homens. Por isso também chamamo-lo de Pai.

- Ele criou o Filho. -- Observou Susana, carregada de objeção.

- Na-na-ni-na-não. O Filho foi gerado desde a eternidade, ele não passou a existir, como as criaturas, mas é eterno porque também é Deus. E o amor que procede de ambos, o Espírito santo, também procede deles desde toda eternidade.

- O Espírito Santo depende dos dois para operar. -- Observou Susana.

- O Espírito Santo -- replicou o Sr. Marcondes elevando o tom de voz, e carregado do prazer que está em proclamar a verdade -- é Deus. É impiedade dizer de qualquer das três pessoas divinas que é desigual ou diferente no que quer que seja. Se você não sabe, a impiedade é a aversão à responsabilidade religiosa, e porventura um pecado moral também.

- Eu nunca o soube nem o podia imaginar. -- Afirmou Susana Antonovna. -- Queres dizer que os Três...

- Têm a mesma majestade e a mesma Glória. -- Confirmou o Sr. Marcondes. -- E se te parece difícil, usa a fórmula "unidade quanto à essência (essência sendo aquilo que torna algo o que é) e distinção quanto às pessoas". Muito bem, se o fizeres estarás pronta para compreender a doutrina infalível, naturalmente sendo esta a católica, e pronta a estar imune contra toda heresia e erro, e a replicar, em face dos hereges e pagãos, essas verdades que lhes fazem ranger os dentes.

- Uau, eu quero te dar um soco por tal chauvinismo! -- Exclamou Susana.

- E eu desejo te ser grato, quer me dês o soco ou não. Contanto que haja alguém irritado com receber a doutrina católica, estarei grato, alegre e tranquilo. Fiz minha parte, e entro no banquete sem fim. -- Disse Marcondes.

A dizer a verdade, o Sr. Marcondes não ignorava que a sua retórica soava inumana e falha, o que aliás acontece na melhor das famílias, infelizmente, pensava ele consigo, na melhor das religiões. Mas sucede que a verdade é inumana, porque independe do homem. Ela é inumana porque é perfeita, mas é inumana porque soa, essa brisa longínqua corrompida ao longo do caminho, imperfeita.

- Susana... -- Dirigiu-se-lhe o Sr. Marcondes.

- Sim? -- Indagou Antonovna.

- Eu desejo capturar o tempo, voltar à esperança e ao amor primeiro pela Igreja e seus ensinamentos. Eu quero que Ela triunfe. Eu quero que, não importa quão moroso, confuso e mórbido seja o ar em torno dela, permaneça a fé nos seus ensinamentos infalíveis, eu quero que a minha alma nunca deixe de se abrasar pela paixão pela Igreja.

- Não é isso uma loucura? -- Perguntou Susana, de tal modo a sua voz surgia como uma confissão cheia de bondade, que o Sr. Marcondes sentiu amor por ela e desejou de todo coração que fosse salva pela fé na Igreja, para si única via de salvação.

- O extremo da loucura e da miséria é dissentir das verdades reveladas por Deus. -- Declarou o Sr. Marcondes.

- Por que Deus não impede as pessoas de dissentirem, então? -- Perguntou Antonovna.

- De fato eu não sei, porque ele poderia impedir, crê-me.

- Uma resposta incomum -- disse-lhe Susana -- geralmente as pessoas respondem com o argumento do livre arbítrio humano, no qual Deus não se mete. Não queres ver a coisa por esse lado?

- Apenas uma parte pequena do que Deus pode fazer é compreensível ao homem. É claro, por isso mesmo a onipotência de Deus também nos é misteriosa. Ele não pode pecar, ignorar, enganar ou ser enganado. Não é a possibilidade de fazer essas coisas que chamaríamos a sua onipotência. Eu acredito, sem hesitação, Susana, que nada é impossível para Deus. É por isso que não me é difícil acreditar que a primeira mulher foi tirada de uma costela do primeiro homem.

- Mas José!? -- Exclamou Susana.

- Tens um raciocínio silogístico para demonstrar que não foi como estou dizendo? -- Perguntou o Sr. Marcondes.

- Não. -- Tornou Antonovna.

- Ora vamos, as pessoas acreditam com frequencia em coisas estúpidas que sabemos, factualmente, serem ilusões. Isso não é uma delas. Eu posso demonstrar que não me viste na Disneylândia hoje pela manhã. Mas não me podes demonstrar que Adão e Eva não aconteceram.

- Quase ninguém é capaz de acreditar... -- Iniciou Susana.

- Minha cara, um católico tem a vantagem diante daqueles cuja expectativa diante da vida é no mínimo modesta, de nunca se desencorajar diante da grandeza de um benefício que deseja de Deus. Isso porque sabe que Deus é onipotente: quem quer que espere o que seja dos Céus tem de acreditar nessa onipotência. Se Deus quiser que passe a existir somente a cor azul para nós, agora, eu creio que Deus irá realizá-lo. Ele pode curar a minha gripe. Fazer nascer uma perna de novo, depois de a haverem decepado.

- Ele pode demonstrar a Santíssima Trindade com argumentos silogísticos, do princípio ao fim? -- Perguntou Susana.

- Eu aposto a minha vida que sim. -- Respondeu Marcondes.

- Ele pode fazer que o sol desapareça e adquiramos a capacidade de resistir ao frio que nos abalaria?

- Pfu... Isso seria para ele bem fácil.

- Ele poderia tornar a lua um pedaço de queijo? -- Perguntou ainda Susana Antonovna.

- Até onde sei ele poderia muito bem já tê-lo feito por alguns instantes, só por brincadeira.

- Ele pode prolongar a nossa conversa por mais cinco anos, ininterruptamente? -- Perguntou Susana, já a estacionar o carro diante do hotel onde o Sr. Marcondes morava.

- Para isso Ele teria de dissipar o meu cansaço, o que, confesso, Ele não fez. Tenho de dormir um pouco. -- Respondeu o Sr. Marcondes, retirando-se do táxi.

- Repete-me a lição a respeito da Santíssima Trindade, peço-te -- disse-lhe Susana, para a surpresa dele.

- Cada um é todo-poderoso, mas não há três todo-poderosos, apenas um. Ademais, o Pai é tradicionalmente chamado todo-poderoso, pois é a fonte de toda origem, e muito embora esta afirmação seja por si misteriosa; o Filho tem a sabedoria, pois é o Verbo do Pai; e o Espírito Santo tem a qualidade de bondoso, pois é o amor dos dois primeiros. Cada uma das pessoas divinas pode receber qualquer desses adjetivos, de acordo com a regra da fé católica. Portanto não te sintas envergonhada por chamar o Pai de Bondoso e o Espírito Santo todo-poderoso. Agora tenho de ir -- disse o Sr. Marcondes, estendendo-lhe uma nota de dinheiro -- boa noite.

- Boa noite!

Sobre o Autor

Pedro Henrique de Lima é escritor e estudante independente. 




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